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Sombras e Sonhos
 


Fanfic da Luluzinha

O Dia da Lagarta
Inspirado em Luluzinha
Alvaro A. L. Domingues

Querido diário,

Estou aqui no meu quarto de castigo! Imagine só, o que tenho que fazer!

Um trabalho sobre lagartas!

Sabe o que é, mamãe quis um dia ser professora e acabou virando contadora. Então ela me dá castigos como se fossem trabalhos de escola! É chato, mas é melhor que lavar toda a louça do jantar como minha amiga, a Aninha. E a mãe dela nem queria ser dona de restaurante...

E tem seu lado bom. Professora e mãe pensa tudo igual. E um dia uma delas vai pedir isso de novo e eu já fiz.

Eu sei que eu devia estar lendo o livro de ciências em vez de estar escrevendo em você. Minha mãe disse que não posso sair do quarto enquanto eu não terminar. E hoje vem a chata da Glorinha com sua mãe mais chata ainda jantar em casa. E minha mãe acha que está me punindo me deixando longe dela!

Você deve estar morrendo de curiosidade, não é? Quer saber o eu aprontei hoje para ganhar um castigo desses, não é?. Bom, mamãe tem verdadeiro horror a estes bichos e eu sei disso. Mas eu, não! O Bolinha diz que isso tá errado, e que meninas sempre têm medo de bichinhos com muitas patas ou viscosos.

Não tenho medo, nem nojo e até gosto delas. Talvez até pra ser contra o Bolinha. Ou porque a Glorinha tenha medo delas. Foi por isso que catei uma lagarta no jardim e levei para casa. Confesso que a minha primeira ideia foi por o bicho no pescoço da Glorinha na sala de aula. Mas aí fiquei com dó da futura borboleta. Tá vendo? Eu até já sei como termina o trabalho!

Levei a lagarta pro meu quarto e coloquei numa caixa de sapatos. Tive que pegar algumas folhas de alface da geladeira. Uma coisa que sempre achei chato na vida das lagartas: elas só comem verdura!

Só que eu me esqueci que papelão um dia tinha sido verdura e a lagarta comeu minha caixa. O Bolinha diz que não, que lagarta só come verdura fresca. Não interessa quem fez o buraco, só sei que ela fugiu. Procurei no meu quarto e não encontrei. Desci as escadas e fui à sala. Era um domingo à tarde e meu pai, como de costume, estava dormindo no sofá. A lagarta estava andando na testa dele. Ainda meio dormindo, ele ia dar um tapa nela!

Dei o maior berro!

– Papai! Não mate a Clotildes!

Minha mãe correu ver o que era. Ela, ao ver a lagarta na testa do meu pai, deu um grito maior que o meu. Foi tão forte que alguns vizinhos vieram acudir.

O susto que eu dei nele, na minha mãe e nos vizinhos gerou este castigo. A Clotildes, coitada, foi morta a chineladas. Vou colocar no meu trabalho que é feio matar a chineladas espécies ameaçadas de extinção.

 



Escrito por Alvaro A. L. Domingues às 09h19
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Encontro

 

O peregrino seguia pelo deserto, debaixo de um sol de torrar, crente de que o teste já teria passado. O Demônio lhe aparecera na forma de um ermitão e quase o enganou, pois parecia um velho sábio. Mas ele conseguira perceber que estava sendo tentado e rechaçara com louvor aquelas três tentações.  Até que fora fácil e talvez seu Pai tivesse dado uma facilitadinha. Porém, como conhecia bem seu Pai, aquele seria apenas uma das provas. O vestibular para Salvador apenas começara.

Um novo desafio não tardou a surgir. Na linha do horizonte, caminhava em sua direção um ponto luminoso pouco a pouco se aproximava. O que será que seu Pai estaria aprontando desta vez? Já não enfrentara o Demônio fazia pouco tempo?

Aquele ser brilhante o que seria? À primeira vista um ser brilhante deveria ser um ser de luz. E luz representava o Bem. Todavia as lanças romanas também brilhavam no sol e não faziam Bem nenhum...

O fenômeno pedia cautela. Seria ser mais um teste proposto pelo seu Pai? Ou algum acontecimento sobre o qual Ele não desejava intervir?

De qualquer forma estava só e teria que se virar. E o tal ser já se aproximava e ele teria que tomar alguma atitude.  Mas não foi o peregrino que fez alguma coisa. Foi o ser de luz que se ajoelhou diante dele. O viajante do deserto já não se surpreendia com isso, desde seu encontro com João Batista. Sua divindade deveria ser manifestada, mas não transformar-se em motivo de devoção. Devia por os pingos nos is. Resolutamente, disse:

– Levanta-te homem! Não sou mais do que ti.

– Desculpa-me, mestre, mas julguei ser a atitude correta – disse o ser, levantando-se.

Agora, mais de perto, os detalhes podiam ser vistos. O ser de luz tinha a forma humana, sem asas ou auréolas, o que indicava que não era nem santo nem anjo e uma voz que lembrava uma trombeta rachada.  Mas ainda assim poderia ser outro demônio e a atitude devocional seria apenas um disfarce.

– Quem és tu, ser de luz – perguntou o vestibulando.

– Não sou um ser de luz. O brilho que vês é o sol refletindo sobre minha superfície metálica – respondeu o estranho.

– Ainda assim, pergunto: quem és tu? – insistiu o candidato a Salvador. – De onde vieste?

A resposta que o estranho lhe deu foi surpreendente, mesmo para ele:

– Sou Metalik 5, um robô, e vim do futuro, uns 2500 anos para frente.

2500 anos no futuro? O ser de luz não era mau, mas devia ser maluco. Porém, ainda havia a possibilidade de ser mais um dos truques de seu Pai. Se fosse, a brincadeira teria ido longe demais. O jeito era continuar com o jogo e ver aonde aquilo ia parar.

– O que vem a ser um robô? – perguntou.

– Somos seres artificiais, criados pelo homem, para amar e servir a Humanidade. – respondeu o ser.

O mestre arregalou os olhos e visivelmente alterado, gritou:

– Se eu não fosse o Filho do Homem, soltaria um palavrão!

– Por quê? – perguntou desconsolado o robô.

– Eu vim para a Terra a mando de meu Pai, justamente par desfazer um equivoco semelhante.

– Um equívoco?

– Sim! O Homem um dia achou que foi criado para amar e servir a Deus. Meu Pai então me disse; “Desce e fala para eles que eles têm de cuidar das próprias vidas!” E tu me dizes que vens do futuro onde o homem um ser para paparicá-lo?

O robô não pareceu entender. Então,  o mestre, percebendo isso, tentou explicar.

– Meu Pai, que alguns chamavam de Deus, percebeu que os homens precisavam de um tutor para conduzi-los durante seu processo evolutivo. Então inventou uma história de que os homens deviam amá-lo e obedecê-lo, incondicionalmente. E ai daquele que não fizesse! Com isso conseguiu passar algumas instruções, dez ao todo, para que os homens pudessem evoluir. Quando julgou que a Humanidade não precisava mais dele, saiu de fininho. E foi descansar lá em cima. Daí ele resolveu dar uma espiadela e, para seu espanto, os homens ainda estavam construindo templos em seu nome!

– E o que fez teu Pai?

– Achou que a humanidade devia ser alertada pela bobagem que estava fazendo. E me mandou dar um jeito em tudo isto.

O robô coçou a cabeça e disse:

– Eu acho que as coisas não saíram muito do jeito que tu querias...

– Por acaso, no futuro, as pessoas ainda acham que Deus vai dar um jeito em tudo?

– Não. Mas isso levou uns 2200 anos. Nesses 2200 anos fundaram não uma, mas várias igrejas no teu nome...

 – No meu nome? Isso não estava no programa! Mas finalmente acharam seu rumo.    

– Não! E é justamente por isso que estou aqui. O homem do meu tempo parece feliz. Não tem doenças, a economia está equilibrada, portanto não há pobreza, e o planeta está ecologicamente saudável . Tudo graças a nós robôs.

– E o que tem isso de ruim, já que fostes feitos para isso mesmo?

– O homem não evolui mais. Vive no tédio da utopia.

– Entendo. Com monte de babás em volta ele se tornou um bebê mimado. Do mesmo jeito que meu Pai os vê agora.

– Sim, fomos criados para não lhes causar mal, mas ao fazer isso, paradoxalmente causamos um grande mal.

– E o que quereis de mim?

– Muitos homens em várias épocas o consideravam o mais sábio, por isso fundaram várias religiões em teu nome. Eu vim aqui por achar que tu podes ter uma resposta e dizer-nos o que fazer!

O mestre sorriu e disse:

– Dir-te-ei o que tentarei dizer a eles: “Ide, faze o que é necessário, pois tu podes. Tua fé te salvará”.

O homem de lata quase sorriu, agradeceu e partiu.

 

 

 

 Álvaro A. L. Domingues

Maio 2010           .



Escrito por Alvaro A. L. Domingues às 04h38
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Marcas no pescoço

 

Assustou-se ao ver uma mancha roxa no pescoço da irmã, mas não perguntou nada.  

 

Ele só tinha oito anos, mas sabia tudo sobre aquilo: sua irmã tinha sido atacada por um vampiro.  

 

Isso explicava o comportamento estanho dela, desde que fizera dezesseis anos: dormia até tarde, irritava-se com a luz solar e saia muito à noite. Sua mãe não ligava, e dizia, quando ele manifestava suas suspeitas, que era apenas adolescência. Que ele entenderia quando chegasse sua vez.

 

Talvez a mãe soubesse do estado da filha e estivesse escondendo. Ficou preocupado com o “quando chegasse sua vez”. Viraria um vampiro também? Talvez sua mãe também fosse uma. Mas ela sempre levantava cedo para levá-lo à escola. Mas e aquele livro que sua irmã lera que tinha vampiros que brilhavam sob o sol?

 

O jeito era descobrir. Alho, estaca e crucifixo? Sua irmã detestava alho! Mas espere! Ele também! E desde sempre. E ele ainda não era um vampiro! Portanto o alho não servia pra nada.

 

A estaca, só como último recurso. Mesmo que a irmã fosse um vampiro, nunca iria lhe espetar uma estaca no coração (  na realidade, a estaca era um pedaço de cabo de vassoura, apontado a facão, como um lápis). Restava o crucifixo. A avó lhe dera um grande, por conta da primeira comunhão.

 

Ficaria esperando quando ela voltasse de uma de suas saídas noturnas, a surpreenderia e mostraria o objeto religioso. Levaria a estaca também, por via das dúvidas, caso ela o agredisse.

 

Foi que fez. Ficou escondido na sala, atrás da cortina, esperando que ela abrisse a porta. Ela chegou, mas não estava sozinha. Um rapaz todo de preto a acompanhava. Os dois, ainda na penumbra, sentaram-se no sofá. E logo começaram os abraços e beijos. Foi quando ele procurou novamente o pescoço da moça. O garoto não se conteve. Com um urro pulou de trás da cortina, bradando crucifixo e a estaca.

 

O rapaz levou um susto e berrou:

 

– Quem é esse maluco?

 

– É o meu irmão! – respondeu a garota.

 

Ele olhou para o menino, cheio de pavor, e continuou gritando:

 

– Eu que não fico nem mais um minuto aqui!

 

E saiu correndo pela porta de entrada.

 

A irmã se voltou pra ele fula! Ela queria estrangulá-lo, gritando:

 

– Seu moleque do capeta! Você espantou meu namorado!

 

– Seu namorado? Pois ele é um vampiro! – retrucou o menino.

 

A gritaria acordou sua mãe, que apartou a briga com um sabão bem dado nos dois. Quando tudo ficou mais calmo, o garoto contou à mãe o motivo da briga. A marca roxa. A senhora gargalhou, deixando o menino perplexo e explicou:

 

– Isso é um marca de um beijo um pouco mais afoito do rapaz. Sua irmã permitiu alguns avanços demais (depois eu acerto com você, mocinha!) do namorado. Não é o beijo de um vampiro!

 

O garoto, envergonhado, voltou para a cama. Não perturbaria mais a irmã, mas ainda deu um ultimo olhar desconfiado pra ela, antes de subir pro quarto.

 

No dia seguinte, a mãe e a moça foram procurar o namorado, para esclarecer “algumas coisinhas”. Chegaram ao endereço que ele fornecera e encontraram uma casa abandonada. Um arrepio percorreu o corpo das duas...

 

Álvaro A. L. Domingues

 



Escrito por Alvaro A. L. Domingues às 21h55
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Ideologia

Não ligava de lutar. Nem mesmo quando tinha de se embrenhar na mata, picado por mosquitos e outros insetos. Nem de ficar de tocaia a noite, deitado na lama, esperando pelo inimigo que às vezes não vinha, ou vinha quando não era esperado. Talvez como agora...

O que o incomodava era a falta de um ideal para justificar estar ali. Por exemplo, seu avô lutara na Segunda Guerra Mundial, um americano desembarcado na Normandia, lutando pela liberdade. Já o avô de seu amigo, descendente de alemães, lutara ao lado dos nazistas, pela supremacia ariana. Seu amigo costuma brincar dizendo que só no Brasil os dos estariam do mesmo lado.

Só no Brasil... lembrou-se da Guerrilha dos anos de chumbo. A luta contra a ditadura era um forte motivador. Algo maior que transcendia a vida pessoal de cada um.

Sempre que se manifestava a respeito, lhe diziam que ideologias eram mentiras disfarçadas e muitos que lutavam em nome delas acabaram se decepcionando.

Mas agora ele queria uma, mesmo que fosse uma mentira. Uma mentira pela qual lutar e até para ter uma decepção.

Era melhor do que aquilo. Lutar apenas para continuar vivo. E para quê? Para herdar um mundo totalmente destruído? Para reconstruir uma sociedade que perdera todos os seus valores?

Estava na hora de parar de pensar. Já ouvia os gritos dos inimigos e de suas vítimas.

A vantagem de lutar contra zumbis era que eles não eram nem um pouco discretos.



Escrito por Alvaro A. L. Domingues às 21h09
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Transubstanciação

 

 

O velho pároco José caminhava pelas ruas, apesar da igreja ter adquirido um aparelho de teletransporte recentemente. Não lhe agradava ver seus átomos serem dispersos por aí. Além do mais, os cientificistas cristãos da Igreja de São Tomé teriam um prato cheio pra desmoralizá-lo em público. Desde que a seita surgira, os católicos, em especial os padres, não tinham mais sossego. Os cientificistas queriam porque queriam provas e mais provas, de fatos históricos, de milagres e dogmas. Diziam ter fé, mas queriam provas. E o pior é que achavam que os padres, por acreditarem em milagres, não deviam se utilizar de qualquer tecnologia. Uma seita completamente irracional que se dizia justamente o contrário.

 

A verdade é que padre José gostava de caminhar e a casa do paroquiano não era muito longe. “Dr Geraldo bem que poderia ter ido até a igreja pra se confessar”, pensou o religioso. “Talvez estivesse doente, já que não o vi na missa no último domingo. Pensado bem, não o vi no anterior. E no antes do anterior, também.” Puxou pela memória quando o vira pela última vez. Uns cinco ou seis meses, talvez. “ Doente mesmo! Talvez em vez de confissão, a extrema unção!” Essa ideia lhe fez sentir um arrepio. E um pingo de remorso. Como ele, um padre tão dedicado à comunidade não percebera a ausência de uma ovelha de seu rebanho?

 

Apressou o passo, lamentando não ter usado o engenho de alta tecnologia da igreja. A casa do paroquiano todavia não estava tão longe e ele a alcançou em poucos minutos.  Ele foi recebido na porta pelo próprio Dr. Geraldo, com uma aparência saudável, apesar do ar de cansaço.

 

Mal ele entrou, o homem começou a falar:

 

— Padre! Que bom que o senhor veio! Queria muito me confessar e não queira ir até a igreja.

 

Padre José ficou perplexo e perguntou:

 

— O que o impediria de ir a igreja? Por acaso está sofrendo de síndrome do pânico?

 

Geraldo riu e respondeu:

 

— Nem pensar! É que minha confissão tem a ver com algo que eu precisava lhe mostrar e não queria levar até a igreja, antes que um padre a visse.

 

— O que essa coisa tem de tão terrível?

 

— Não é terrível... Bem,  talvez seja para os cientificistas...

 

— O que é então?

 

— É um invento! Que vai tirar esses abutres das costas da Igreja Católica pra sempre!

 

Padre José mostrou um ar incrédulo. Dr. Geraldo percebendo esta descrença, argumentou:

 

— Padre, o que eu tenho é um sintetizador de transubstanciação!

 

O páraco arregalou os olhos, gritando:

 

— Um o que?!

 

— Um sintetizador de transubstanciação.

 

— Explique!

 

— Vamos do começo, então. Eu percebi que as polêmicas com os cientificistas cristãos eram quase todas baseadas em cima dos eventos históricos: a virgindade de Maria, a ressurreição de Cristo, os milagres, etc.. Como aconteceram há muito tempo, nenhum dos dois lados pode provar nenhum dos fatos, já que não há provas físicas, apenas de testemunhos de pessoas crédulas ou incrédulas contemporâneas aos acontecimentos.

 

— Todos, menos um...

 

— Isso mesmo padre. A cada missa, a Igreja oferece o milagre da transubstanciação. O pão transforma-se no corpo e o vinho no sangue de Cristo! Algo que pode ser provado por uma simples análise química. É claro que a Igreja jamais permitira uma análise destas, pois sabemos que seriam encontrados apenas pão e vinho (ou talvez vinagre...).

 

— Meu Deus! Não vai me dizer que..

 

— Sim! Eu fiz uma máquina que transforma a hóstia em carne e o vinho em sangue, desde que, é claro, tenham sido consagradas por um padre!

 

Padre José estava chocado, mas também curioso, e perguntou:

 

— Como isto é possível?

 

— Eu modifiquei um aparelho de teletransporte, que em vez de separar os átomos de um objeto, separa seus constituintes mínimos, prótons, elétrons e nêutrons e os reagrupa de novo de acordo com um outro padrão, previamente escolhido! Como meio de iniciar o processo eu codifiquei como senha as orações da consagração. E um reconhecimento de voz, a sua. Para aumentar a verossimilhança, a carne e o sangue têm o DNA de um descendente da casa de Davi.

 

Padre José mudou de expressão. Em vez de choque ou perplexidade, raiva. E ele então gritou:

 

— Seu idiota! Não percebe que você está fazendo o mesmo jogo dos cientificistas? Eles são incapazes de perceber que isto tudo é simbólico, metafórico, mítico! Ter uma prova para crer é justamente o erro de São Tomé. A Transubstanciação é um mistério, porque ocorre no nível espiritual. Simboliza entre outras coisas que Cristo está sempre entre nós. Religião sem mistério não é religião!

 

Geraldo não escondeu sua decepção. Porém a decisão do padre José era irrevogável. A absolvição estava condicionada à destruição da máquina.

 

O sacerdote voltou mais aliviado para a Igreja. Na próxima missa ficaria contente de que a hóstia continuaria sendo hóstia. E com gosto apenas de hóstia...

 

P.S.: Este conto nasceu de uma discussão no grupo do Clube dos Leitores de Ficção Científica a respeito de temas pertinentes ou não para a Ficção Científica. A religião em si,  como todo tema humano, para mim, é um tema pertinente, quer o autor creia ou não. Todavia eu nunca tinha escrito nada em a que religião em si fosse o tema. O resultado deste auto desafio foi este conto.

 

Álvaro A. L. Domingues

17/03/2010       .



Escrito por Alvaro A. L. Domingues às 08h42
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O Que Alice encontrou na Eternidade

 

Alice gostava de olhar pra o velho relógio de pêndulo, alto com um armário e estreito como um... como um ...como o padre magricela que vinha de vez em quando conversar com seu avô.

 

Mas o velho relógio não era chato como o velho padre. É certo que só falava tic, tac, mas era melhor ouvi-lo do que ouvir as mesmas exortações do pároco. Ele procurava tirar seu avô da vida de ateu (“agnóstico”, como ele se definia), ameaçando-o com as penas eternas do inferno.

 

No começo Alice tinha medo do inferno e das terríveis penas que o padre descrevia, mas, pouco a pouco, o medo foi sendo abandonado devido às descrições cada vez mais grotescas e exageradas do padre, passando do terror ao ridículo em poucos meses.

 

O que ainda a incomodava nas falações do “representante de Deus” era a palavra Eternidade. Resolveu perguntar ao relógio:

 

– Relógio, o que é Eternidade?

 

Prestou atenção e só ouviu o tic, tac de sempre. Sempre? A eternidade seria o sempre? Então devia ser chata mesmo e podia estar lá no inferno. Sua mãe sempre a repreendia, seus professores sempre lhe davam nota baixa, porque ela sempre esquecia as respostas certas... Ou talvez o nunca. Ela nunca podia comer a sobremesa antes do jantar, nunca podia dormir depois das nove e nunca podia subir em arvores porque era menina e meninas sempre vestiam saia.

 

O pendulo do relógio ia pra lá e pra cá. Tic. Tac. Sempre. Nunca. Sempre. Nun...

 

O relógio assumiu um ar grave. “Ar?”, pensou Alice intrigada. Relógios não têm “ar” de coisa nenhuma a não ser de uma cara cheia de números e ponteiros. Se fosse possível, o relógio teria sorrido. Alice olhou melhor e viu que o relógio lhe sorria com uma boca, debaixo de um nariz, debaixo de dois olhos.

 

 Pensei que isto nunca ia acontecer! – gritou Alice, meio assustada,  meio excitada.

 

– Pronto! – respondeu o relógio. Você acabou com a eternidade do nunca.

 

Alice ficou intrigada e pensou um pouco, tentando entender o que o relógio lhe falava. Desistiu logo e perguntou:

 

– Como assim?

 

O relógio assumiu novamente o ar grave e respondeu com gravidade necessária:

 

– Nunca ia acontecer, e aconteceu! O nunca não é mais eterno!

Alice não gostou que o relógio tivesse ralhado com ela! Já não chegava seu pai, sua mãe, sua irmã e os professores? Cheia de raiva, revidou:

 

– Seu velho ingrato! Eu sempre lhe dei atenção e você vem ralhar comigo!

 

O relógio não se abalou e continuou no mesmo tom:

 

– Lá se foi o sempre também!

 

Alice ficou mais intrigada ainda. Como ela podia ter destruído a eternidade do sempre? Sempre é sempre! E pronto!

 

Como se estivesse lendo seus pensamentos, o relógio respondeu:

 

– Como sempre? Estou nesta sala há pelo menos vinte anos e você tem no máximo uns doze. E pelo menos durante uns cinco anos você nem notou que eu existia!

 

– Vocês relógios se melindram facilmente! – queixou-se a menina.

 

– Você já melindrou algum outro relógio? – perguntou ele, cheio de ironia.

 

– Nunca! – gritou a menina já farta das tiquetaqueadas mal educadas.

 

O relógio recolheu-se a seu velho semblante cheio de números, diante da resposta de Alice, fingindo indiferença. A menina resolveu esquecê-lo e ir brincar lá fora. Talvez o velho relógio de sol do jardim tivesse a fim de conversar.

 

Chegando ao jardim correu para o relógio de sol. Encontrou-o com uma expressão tristonha e, preocupada, interpelou-o:

 

– Por que está triste?

 

O relógio de sol de uma suspirada e respondeu:

 

– Você também estaria triste se não pudesse ser você mesma.

 

Alice arrepiou-se, ao lembrar  que uma vez perdera a identidade e ficara sem saber quem era por um bom tempo. O relógio continuou:

 

– Como você pode ver, hoje o tempo está nublado. Sem sol não sou relógio, muito menos “de sol”!

 

A menina sentiu que as coisas não estavam indo bem para ela. Será que todos os relógios eram assim tão mal humorados? Talvez o seu trabalho, de marcar dia a pós dia o tempo dos homens os deixassem naquele estado. E se não houvesse relógios? Talvez o tempo não andasse. Seria criança eternamente, como Peter Pan. Mas teria que ir para a escola e a aula não acabaria nunca. Procurou tirar isso da cabeça. Com relógio, teria que acordar cedo, mas também saberia quando haveria recreio e quando voltaria pra casa.

 

Mas ainda não sabia o que era eternidade. Pensou em perguntar para o avô, mas sabia que respostas dele teriam palavras difíceis que só serviriam para confundi-la mais. Adultos geralmente fazem isso com crianças quando não sabem a resposta.

 

Alice sentou-se no balanço e deixou-se balançar. “Como o pendulo do relógio”, pensou. O vai e vem do balanço acabou por acalmá-la, deixando livres seus pensamentos. O futuro desejado misturou-se ao passado lembrado. O passado lembrado deu lugar aos sonhos antigos e esquecidos. Os novos sonhos misturam-se a imagens de brincadeiras e trechos de livros. Neste estado ela viu a folha.

 

Uma folha levada pelo vento, presa num redemoinho, subia e descia sem tocar de novo o chão fazendo sempre o caminho de ir e vir. O ponto de saída e de chegada eram os mesmos, mas os caminhos entre eles eram muitos. A cada ciclo, a folha fazia um caminho diferente e, tal qual um caleidoscópio, sem nunca se repetir. E então ela sentiu. Ainda que o vento parasse, ainda que de repente não houvesse mais a folha, aquele momento que ela observara seria eterno.

 

E seu rosto iluminou-se.

 

Álvaro A. L. Domingues

06/01/2010

 

 



Escrito por Alvaro A. L. Domingues às 12h23
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Casablanca

Não sei tocar piano
Não tenho um amigo chamado Sam
Mas revejo a cena num velho DVD
O ar de sofrimento blassé de Humphrey Bogart
Tentando ser nobre e escondendo
Baixíssima auto-estima.

E Ingrid Bergman mostrando hesitação
A espera de um único sinal
Para sempre escondido
No rosto frio e cínico
Atrás de nobreza fingida
E orgulho ferido
De seu outrora amado

Humphrey Bogart
Vira o rosto
Sabedor de que
O tempo e a distância
Nunca curam velhas feridas



Escrito por Alvaro A. L. Domingues às 11h41
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Sombras e Sonhos

Demônios povoam os sonhos.
De onde virá a Luz?
Sem medo ela porta um cálice,
Feito de dura pedra.

Em seu interior, um Sol
Tal qual uma hóstia
Tenta partí-lo em pequenos pedaços
E dar em comunhão à multidão de sombras

Uma voz cheia de poder, lhe diz
"Erga o Sol acima de tua cabeça
E mostra-o para que a multidão
Veja que tu portas a Luz".

Ela obedece e com o Sol
Na ponta dos dedos da mão esquerda
O ergue, exibindo-o para quem sofre
E as sombras se enchem de Luz

 

Alvaro A. L. Domingues

imagem: obtida na web, sem referencia de autoria



Escrito por Alvaro A. L. Domingues às 14h20
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Nostalgia

Lúcifer viu com tristeza
A Luz de quem fora senhor se afastar.

Escolhera assim.

As trevas mais profundas
Ainda precisariam dele.

Única fonte de Luz
Num mundo de escuridão.

Álvaro




Escrito por Alvaro A. L. Domingues às 22h36
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A Arthur Clark

*16/12/1917                                     + 19/03/2008

 

Quando todos sonhávamos com o futuro

Ele o criava, esculpindo artefatos

Com o cinzel de sua pena

 

Alvaro 19/03/2008

imagem: foto de divulgação do filme "2001, Uma Odisséia no Espaço"



Escrito por Alvaro A. L. Domingues às 08h05
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Poema

Em busca de um Herói
 

 
Cansamos de heróis derrotados,
Mortos em causas perdidas:
Tiradentes, Zumbi e Lamarca!
Queremos um Herói vencedor!
 
Brás Cubas recita:
"Ao vencedor, as batatas".
E Macunaíma sorri
Quando aplaudimos
O Capitão Nascimento.
 
Alvaro A. L. Domingues
foto: Bope em ação no Rio - divulgação


Escrito por Alvaro A. L. Domingues às 18h20
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Natal

 

 

Árvore de natal

 

Luzes brilham na árvore

Simbolizando cada uma

Um pequeno sonho

Plantada por uma pequena mão

Cheia de sonhos e esperanças

 

Alvaro

23/12/2007

imagem: da internet, sem autoria



Escrito por Alvaro A. L. Domingues às 23h01
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Duas imagens, dois poemas

 
Linha Reta
 
Alinhavando o morro,
Linha férrea
Costura o destino.
 
 
Alvaro A. L. Domingues 
imagem: Marcio Rogério (colhida na net)
 
 
Prelúdio
 
As nuvens brancas num céu cinza
 prenunciam tempestades
em preto e branco.
 
Logo Doroti será levada
para o colorido reino de Oz
 
Alvaro A. L. Domingues 
imagem: Areia Cinza - sem autor (colhida na net)


Escrito por Alvaro A. L. Domingues às 08h09
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Crepúsculoda magia

Crepúsculo da Magia
para meu filho Henrique, que fará 12 anos amanhã
 
 
Não há mais gnomos no meu jardim. Nem fadas na minha janela.  Busco insistentemente ainda ver as fadas e gnomos, mas eles são arredios e tem medo de gente adulta. Essas pessoas que não querem apenas vê-los. Querem pegá-los como bichos de estimação. Ou querem colocá-los em vidros pra depois estudá-los. Alguns até querem espantá-los, como se fossem nocivos às planta e animais. Outros ainda desejam capturá-los para obrigá-los a realizar seus desejos. Eu apenas quero vê-los em seu folguedos. Escutar seu gritinhos alegres como de crianças. Admirar-me de seu mundo feliz e sem problemas de gente grande. Pena que eles perceberam que eu cresci...
 
Alvaro 27/11/2007
Imagem: Casal de Gnomos -  Rien Poortlviet 


Escrito por Alvaro A. L. Domingues às 08h57
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A marca da maldade

 
 
 
Tarde da noite revejo velhos filmes de terror. Eles assustaram milhares de fãs de outrora, com seus enredos simples e seus efeitos especiais pobres. Hoje não assustam mais ninguém. Mas havia o olhar de Bela Lugosi, insuperável marca da maldade que ainda assombra a sala de cinema vazia.
 
Alvaro
imagem: Bela Lugosi - foto promocional


Escrito por Alvaro A. L. Domingues às 07h17
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