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Sombras e Sonhos
 


Morangos

Morangos à espera
 
Alvaro A. L. Domingues
 
Hoje ela viu os morangos.
 
Neste dia sua sensibilidade estava à flor da pele. Por isso se sentiu atraída pela taça de morangos que estava na mesa. Em outros dias passaria reto por ela, pegaria sua bolsa e iria trabalhar. Como o marido, que havia saído uma hora antes e deixara a taça. Como todos os dias.
 
Quase nunca comia os morangos, mas eles sempre estavam lá. 
 
À espera.
 
Sempre havia alguns com a folhagem. Pegou um deles e pôs sobre a palma da mão esquerda. O contato com sua pele a deixou ligeiramente arrepiada. Demorou alguns segundos sentindo sua textura. O calor da sua mão aqueceu a fruta. A sensação agora era de pele, como se alguém pousasse suavemente a mão sobre a sua.
 
Pegou o fruto pelo cabinho e ficou olhando. Sua forma lembrava-lhe a ponta de uma língua. Lambeu-o mas o gosto não foi de um beijo. A fruta não era tão perfeita assim. Riu da sua imaginação. Depois ficou séria, contemplando o morango. Estaria cedendo ao simbolismo vulgar dos filmes eróticos? A resposta foi sim. Mas, e daí?
 
Lambeu novamente o morango. Agora sim tinha gosto de beijo. Se ela tivesse levantado mais cedo, poderia ter beijado  marido antes dele sair. Mas ele iria embora de qualquer jeito, correndo apressado, preocupado com o horário. Teria que ser mais que  um beijo matinal para arrancá-lo da pressa. Sugou o morango com força. Sentiu o sabor da fruta, agora com gosto de paixão. Quanta paixão seria necessário para fazê-lo esquecer-se de suas responsabilidades? Sugou o morango com força, quase fazendo-o  derreter em sua boca.
 
Seria suficiente? Não!   Teria que por mais paixão ainda. E se ela estivesse semi nua, vestindo apenas o robe de seda translúcido que ele lhe dera em seu aniversário? Duvido que ele resistisse.
 
E ela? Uma parte sua estava lhe gritando: "é tarde!". Seu senso de responsabilidade quase a fez largar os morangos no chão. Precisava silenciá-lo. Agora! Despiu-se ali, jogando suas roupas no chão. E ficou olhando a taça de morango, à espera do sentimento erótico retornar.
 
Não demorou muito e cada morango virou uma carícia diferente, percorrendo seu corpo, como se fossem, os dedos, os lábios e a língua de seu marido.
 
Cheia de tesão ligou para ele, pedindo que voltasse urgente para casa. Vestiu seu robe, colocou duas taças de morango, e ficou.
 
À espera.
 
 


Escrito por Alvaro A. L. Domingues às 08h22
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