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Sombras e Sonhos
 


Ideologia

Não ligava de lutar. Nem mesmo quando tinha de se embrenhar na mata, picado por mosquitos e outros insetos. Nem de ficar de tocaia a noite, deitado na lama, esperando pelo inimigo que às vezes não vinha, ou vinha quando não era esperado. Talvez como agora...

O que o incomodava era a falta de um ideal para justificar estar ali. Por exemplo, seu avô lutara na Segunda Guerra Mundial, um americano desembarcado na Normandia, lutando pela liberdade. Já o avô de seu amigo, descendente de alemães, lutara ao lado dos nazistas, pela supremacia ariana. Seu amigo costuma brincar dizendo que só no Brasil os dos estariam do mesmo lado.

Só no Brasil... lembrou-se da Guerrilha dos anos de chumbo. A luta contra a ditadura era um forte motivador. Algo maior que transcendia a vida pessoal de cada um.

Sempre que se manifestava a respeito, lhe diziam que ideologias eram mentiras disfarçadas e muitos que lutavam em nome delas acabaram se decepcionando.

Mas agora ele queria uma, mesmo que fosse uma mentira. Uma mentira pela qual lutar e até para ter uma decepção.

Era melhor do que aquilo. Lutar apenas para continuar vivo. E para quê? Para herdar um mundo totalmente destruído? Para reconstruir uma sociedade que perdera todos os seus valores?

Estava na hora de parar de pensar. Já ouvia os gritos dos inimigos e de suas vítimas.

A vantagem de lutar contra zumbis era que eles não eram nem um pouco discretos.



Escrito por Alvaro A. L. Domingues às 21h09
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Transubstanciação

 

 

O velho pároco José caminhava pelas ruas, apesar da igreja ter adquirido um aparelho de teletransporte recentemente. Não lhe agradava ver seus átomos serem dispersos por aí. Além do mais, os cientificistas cristãos da Igreja de São Tomé teriam um prato cheio pra desmoralizá-lo em público. Desde que a seita surgira, os católicos, em especial os padres, não tinham mais sossego. Os cientificistas queriam porque queriam provas e mais provas, de fatos históricos, de milagres e dogmas. Diziam ter fé, mas queriam provas. E o pior é que achavam que os padres, por acreditarem em milagres, não deviam se utilizar de qualquer tecnologia. Uma seita completamente irracional que se dizia justamente o contrário.

 

A verdade é que padre José gostava de caminhar e a casa do paroquiano não era muito longe. “Dr Geraldo bem que poderia ter ido até a igreja pra se confessar”, pensou o religioso. “Talvez estivesse doente, já que não o vi na missa no último domingo. Pensado bem, não o vi no anterior. E no antes do anterior, também.” Puxou pela memória quando o vira pela última vez. Uns cinco ou seis meses, talvez. “ Doente mesmo! Talvez em vez de confissão, a extrema unção!” Essa ideia lhe fez sentir um arrepio. E um pingo de remorso. Como ele, um padre tão dedicado à comunidade não percebera a ausência de uma ovelha de seu rebanho?

 

Apressou o passo, lamentando não ter usado o engenho de alta tecnologia da igreja. A casa do paroquiano todavia não estava tão longe e ele a alcançou em poucos minutos.  Ele foi recebido na porta pelo próprio Dr. Geraldo, com uma aparência saudável, apesar do ar de cansaço.

 

Mal ele entrou, o homem começou a falar:

 

— Padre! Que bom que o senhor veio! Queria muito me confessar e não queira ir até a igreja.

 

Padre José ficou perplexo e perguntou:

 

— O que o impediria de ir a igreja? Por acaso está sofrendo de síndrome do pânico?

 

Geraldo riu e respondeu:

 

— Nem pensar! É que minha confissão tem a ver com algo que eu precisava lhe mostrar e não queria levar até a igreja, antes que um padre a visse.

 

— O que essa coisa tem de tão terrível?

 

— Não é terrível... Bem,  talvez seja para os cientificistas...

 

— O que é então?

 

— É um invento! Que vai tirar esses abutres das costas da Igreja Católica pra sempre!

 

Padre José mostrou um ar incrédulo. Dr. Geraldo percebendo esta descrença, argumentou:

 

— Padre, o que eu tenho é um sintetizador de transubstanciação!

 

O páraco arregalou os olhos, gritando:

 

— Um o que?!

 

— Um sintetizador de transubstanciação.

 

— Explique!

 

— Vamos do começo, então. Eu percebi que as polêmicas com os cientificistas cristãos eram quase todas baseadas em cima dos eventos históricos: a virgindade de Maria, a ressurreição de Cristo, os milagres, etc.. Como aconteceram há muito tempo, nenhum dos dois lados pode provar nenhum dos fatos, já que não há provas físicas, apenas de testemunhos de pessoas crédulas ou incrédulas contemporâneas aos acontecimentos.

 

— Todos, menos um...

 

— Isso mesmo padre. A cada missa, a Igreja oferece o milagre da transubstanciação. O pão transforma-se no corpo e o vinho no sangue de Cristo! Algo que pode ser provado por uma simples análise química. É claro que a Igreja jamais permitira uma análise destas, pois sabemos que seriam encontrados apenas pão e vinho (ou talvez vinagre...).

 

— Meu Deus! Não vai me dizer que..

 

— Sim! Eu fiz uma máquina que transforma a hóstia em carne e o vinho em sangue, desde que, é claro, tenham sido consagradas por um padre!

 

Padre José estava chocado, mas também curioso, e perguntou:

 

— Como isto é possível?

 

— Eu modifiquei um aparelho de teletransporte, que em vez de separar os átomos de um objeto, separa seus constituintes mínimos, prótons, elétrons e nêutrons e os reagrupa de novo de acordo com um outro padrão, previamente escolhido! Como meio de iniciar o processo eu codifiquei como senha as orações da consagração. E um reconhecimento de voz, a sua. Para aumentar a verossimilhança, a carne e o sangue têm o DNA de um descendente da casa de Davi.

 

Padre José mudou de expressão. Em vez de choque ou perplexidade, raiva. E ele então gritou:

 

— Seu idiota! Não percebe que você está fazendo o mesmo jogo dos cientificistas? Eles são incapazes de perceber que isto tudo é simbólico, metafórico, mítico! Ter uma prova para crer é justamente o erro de São Tomé. A Transubstanciação é um mistério, porque ocorre no nível espiritual. Simboliza entre outras coisas que Cristo está sempre entre nós. Religião sem mistério não é religião!

 

Geraldo não escondeu sua decepção. Porém a decisão do padre José era irrevogável. A absolvição estava condicionada à destruição da máquina.

 

O sacerdote voltou mais aliviado para a Igreja. Na próxima missa ficaria contente de que a hóstia continuaria sendo hóstia. E com gosto apenas de hóstia...

 

P.S.: Este conto nasceu de uma discussão no grupo do Clube dos Leitores de Ficção Científica a respeito de temas pertinentes ou não para a Ficção Científica. A religião em si,  como todo tema humano, para mim, é um tema pertinente, quer o autor creia ou não. Todavia eu nunca tinha escrito nada em a que religião em si fosse o tema. O resultado deste auto desafio foi este conto.

 

Álvaro A. L. Domingues

17/03/2010       .



Escrito por Alvaro A. L. Domingues às 08h42
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