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Sombras e Sonhos
 


Encontro

 

O peregrino seguia pelo deserto, debaixo de um sol de torrar, crente de que o teste já teria passado. O Demônio lhe aparecera na forma de um ermitão e quase o enganou, pois parecia um velho sábio. Mas ele conseguira perceber que estava sendo tentado e rechaçara com louvor aquelas três tentações.  Até que fora fácil e talvez seu Pai tivesse dado uma facilitadinha. Porém, como conhecia bem seu Pai, aquele seria apenas uma das provas. O vestibular para Salvador apenas começara.

Um novo desafio não tardou a surgir. Na linha do horizonte, caminhava em sua direção um ponto luminoso pouco a pouco se aproximava. O que será que seu Pai estaria aprontando desta vez? Já não enfrentara o Demônio fazia pouco tempo?

Aquele ser brilhante o que seria? À primeira vista um ser brilhante deveria ser um ser de luz. E luz representava o Bem. Todavia as lanças romanas também brilhavam no sol e não faziam Bem nenhum...

O fenômeno pedia cautela. Seria ser mais um teste proposto pelo seu Pai? Ou algum acontecimento sobre o qual Ele não desejava intervir?

De qualquer forma estava só e teria que se virar. E o tal ser já se aproximava e ele teria que tomar alguma atitude.  Mas não foi o peregrino que fez alguma coisa. Foi o ser de luz que se ajoelhou diante dele. O viajante do deserto já não se surpreendia com isso, desde seu encontro com João Batista. Sua divindade deveria ser manifestada, mas não transformar-se em motivo de devoção. Devia por os pingos nos is. Resolutamente, disse:

– Levanta-te homem! Não sou mais do que ti.

– Desculpa-me, mestre, mas julguei ser a atitude correta – disse o ser, levantando-se.

Agora, mais de perto, os detalhes podiam ser vistos. O ser de luz tinha a forma humana, sem asas ou auréolas, o que indicava que não era nem santo nem anjo e uma voz que lembrava uma trombeta rachada.  Mas ainda assim poderia ser outro demônio e a atitude devocional seria apenas um disfarce.

– Quem és tu, ser de luz – perguntou o vestibulando.

– Não sou um ser de luz. O brilho que vês é o sol refletindo sobre minha superfície metálica – respondeu o estranho.

– Ainda assim, pergunto: quem és tu? – insistiu o candidato a Salvador. – De onde vieste?

A resposta que o estranho lhe deu foi surpreendente, mesmo para ele:

– Sou Metalik 5, um robô, e vim do futuro, uns 2500 anos para frente.

2500 anos no futuro? O ser de luz não era mau, mas devia ser maluco. Porém, ainda havia a possibilidade de ser mais um dos truques de seu Pai. Se fosse, a brincadeira teria ido longe demais. O jeito era continuar com o jogo e ver aonde aquilo ia parar.

– O que vem a ser um robô? – perguntou.

– Somos seres artificiais, criados pelo homem, para amar e servir a Humanidade. – respondeu o ser.

O mestre arregalou os olhos e visivelmente alterado, gritou:

– Se eu não fosse o Filho do Homem, soltaria um palavrão!

– Por quê? – perguntou desconsolado o robô.

– Eu vim para a Terra a mando de meu Pai, justamente par desfazer um equivoco semelhante.

– Um equívoco?

– Sim! O Homem um dia achou que foi criado para amar e servir a Deus. Meu Pai então me disse; “Desce e fala para eles que eles têm de cuidar das próprias vidas!” E tu me dizes que vens do futuro onde o homem um ser para paparicá-lo?

O robô não pareceu entender. Então,  o mestre, percebendo isso, tentou explicar.

– Meu Pai, que alguns chamavam de Deus, percebeu que os homens precisavam de um tutor para conduzi-los durante seu processo evolutivo. Então inventou uma história de que os homens deviam amá-lo e obedecê-lo, incondicionalmente. E ai daquele que não fizesse! Com isso conseguiu passar algumas instruções, dez ao todo, para que os homens pudessem evoluir. Quando julgou que a Humanidade não precisava mais dele, saiu de fininho. E foi descansar lá em cima. Daí ele resolveu dar uma espiadela e, para seu espanto, os homens ainda estavam construindo templos em seu nome!

– E o que fez teu Pai?

– Achou que a humanidade devia ser alertada pela bobagem que estava fazendo. E me mandou dar um jeito em tudo isto.

O robô coçou a cabeça e disse:

– Eu acho que as coisas não saíram muito do jeito que tu querias...

– Por acaso, no futuro, as pessoas ainda acham que Deus vai dar um jeito em tudo?

– Não. Mas isso levou uns 2200 anos. Nesses 2200 anos fundaram não uma, mas várias igrejas no teu nome...

 – No meu nome? Isso não estava no programa! Mas finalmente acharam seu rumo.    

– Não! E é justamente por isso que estou aqui. O homem do meu tempo parece feliz. Não tem doenças, a economia está equilibrada, portanto não há pobreza, e o planeta está ecologicamente saudável . Tudo graças a nós robôs.

– E o que tem isso de ruim, já que fostes feitos para isso mesmo?

– O homem não evolui mais. Vive no tédio da utopia.

– Entendo. Com monte de babás em volta ele se tornou um bebê mimado. Do mesmo jeito que meu Pai os vê agora.

– Sim, fomos criados para não lhes causar mal, mas ao fazer isso, paradoxalmente causamos um grande mal.

– E o que quereis de mim?

– Muitos homens em várias épocas o consideravam o mais sábio, por isso fundaram várias religiões em teu nome. Eu vim aqui por achar que tu podes ter uma resposta e dizer-nos o que fazer!

O mestre sorriu e disse:

– Dir-te-ei o que tentarei dizer a eles: “Ide, faze o que é necessário, pois tu podes. Tua fé te salvará”.

O homem de lata quase sorriu, agradeceu e partiu.

 

 

 

 Álvaro A. L. Domingues

Maio 2010           .



Escrito por Alvaro A. L. Domingues às 04h38
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